domingo, 14 de novembro de 2010

Memórias Póstumas

Eu visualizo os períodos de grandes viagens assim: é como se a nossa vida fosse uma linha em que estão sequenciados todos os acontecimentos de forma temporal, lógica e coerente. Aí viajamos, passamos um tempo - 8 meses, 1 ano, 2, não sei. Então, dessa linha temporal, lógica e coerente, que tem um grande caminho percorrido para trás e um caminho desconhecido por vir, é cortado aquele pedacinho, o pedacinho referente àquele período da viagem, e posto um pouco acima, à parte, separado da vida que corre linearmente ali embaixo.

A gente volta e (re?)descobre nossa família, nossa casa, nossos amigos, nossas roupas (argh!), nosso clima, nosso verde, nosso time voltando à primeira divisão... Às vezes parece que nunca havíamos ido. Parece que não passou aquele frio, aquelas conversas em espanhol com aquela gente de tantos países, aqueles passeios de patins pelo parque, aquele flamenco, parece que nada passou. A impressão que tenho é de que, quando tiraram da minha “linha” da vida aquele pedacinho correspondente ao período da viagem, juntaram as pontas que antes haviam ficado soltas e a vida seguiu exatamente do ponto onde havia parado – à parte do fato de que dentre as primeiras frases de minha mãe estava “eu estava te esperando para montarmos a nossa árvore de Natal”. E já é Natal de novo, quando eu havia saído, justamente, logo após o Natal.

Sem mais, foi bom demais.

E vai ser melhor ainda daqui para frente.

terça-feira, 9 de novembro de 2010

Acho que a gente tem que aprender a dar valor às coisas que têm valor, sabe?

Por exemplo, são seis toalhas de banho, mais dois roupões, mais duas toalhas de chão e, quando fomos ao SPA que está incluído nas duas diárias a 100 euros, havia mais duas toalhas. Olha, gente, definitivamente, quantidade de toalhas disponíveis é algo a se levar em consideração num hotel. Eu estou realizada.

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Eu entrei aqui para dizer que estamos fechando de puta madre a nossa temporada europeia nesse hotelzinho aqui, na serra perto de Madri. Altamente recomendável, ainda mais com essa promoção que pegamos.

No mais, agorinha mesmo está nevando.

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

O dia em que o coração sentiu

Acho que hoje, por fim, eu entendi aquela máxima: “o que os olhos não veem...”

Porque tem coisas que a gente sabe que existem, e até se defende delas (por antecipação) um pouco, mas daí que vejamos com nossos próprios olhos o que apenas supúnhamos, que descubramos a verdade, é um longo caminho.

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Foram quatro meses em Barcelona. A cidade não me agradava muito. Não por questões estéticas – é belíssima, como todas as outras cidades européias que visitei – e demorei para conseguir traduzir o que não me agradava por lá. Terminei por descobrir que o catalão trata o resto da Espanha como os sudestinos e sulistas tratam o Norte e Nordeste do Brasil e, por isso, por sentimento de identificação e irmandade, passei a amar a Andaluzia e sua “preguiça”, sua vocação para festas e seu jeito “errado” de falar.

E Juan sempre reclamava comigo quando eu dava uma esculhambada em sulistas. Ora, vejam bem, eu nunca fui ao sul do Brasil. Reclamava porque sei que nordestino é discriminado do Espírito Santo pra baixo e me sentia na obrigação de esculhambar de volta, mas, em essência, não tinha nada contra ninguém. Nenhum argumento depreciativo. Se me perguntassem por que eu esculhambava o Sul, eu dizia: - Porque eles esculhambam a gente.

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O povo fica me perguntando se eu vou me adaptar na volta ao Brasil. Antes de vir, muita gente apostava que eu ficaria por aqui. Uma informação valiosa sobre mim, pessoal: eu sou neta de Dr. Zinaldo e com ele aprendi que um filho do Brasil não foge à luta. Viajo para conhecer, viajo para passear, viajo para ter experiências diferentes, povos, cultura e gente diferente. Conhecimento. Mas eu volto. Com certeza, eu volto.

E outra, volto porque nunca conseguiria viver num lugar onde fosse discriminada. Nunca conseguiria conviver com gente que me olha atravessado porque eu nasci na América do Sul, porque nasci no Brasil, porque nasci no Nordeste, porque nasci na Bahia, porque nasci em Salvador. Nunca. Não por medo ou covardia de enfrentar, mas porque o preconceito é a pior das estupidezes, a pior das burrices, a pior das ignorâncias. Eu não mereço o desprazer de conviver com gente preconceituosa. Não, obrigada. A estes, afundem-se, por favor, no excremento que é o preconceito.

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E hoje ganha Dilma Rousseff, primeira mulher presidente do Brasil. Eu sou de esquerda, todo mundo sabe. Revolto-me com corrupção e safadeza, claro, mas na minha balança meu voto este ano estaria definido para o primeiro e para o segundo turno: seria 13. E ocorre que o povo votou por mim e temos Dilma presidente.

Estivemos ansiosos, debatemos à exaustão - eu diria que muito mais do que um casal costuma debater política e ideologia -, nos sentimos culpados por não estar aí e votar, mais uma vez, a favor do povo, a favor da redução das desigualdades, a favor do crescimento e do protagonismo internacional do Brasil.

E, daqui de longe, vencemos.

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Um dia eu fiz a besteira (?) de entrar no twitter. Sigo um punhado de pessoas e instituições, às vezes rio, às vezes nada, mas nunca me comunico com gente por lá. Mas aí hoje cacei repercussões da eleição de Dilma e, de repente, vejo uma sugestão de que busque, dentro do twitter, a palavra “nordeste”.

Busquei.

Não sei bem o que se inaugura no Brasil com o que vi. Com a vitória de Dilma nos estados do Norte e Nordeste, o twitter foi invadido por uma onda de preconceito que eu, brasileira, nordestina, baiana, soteropolitana, nunca havia imaginado na minha vida.

(...)

Eu nunca havia imaginado.

(...)

O que os meus olhos, até hoje, não tinham visto, eu preferiria que o meu coração nunca tivesse sentido.

Oxalá a “raça ariana” nunca mais volte ao poder.

Oxalá.